Determinantes sociais, biológicos e históricos da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo

Autores

Editora Inovar

Sinopse

Em 1989, o historiador estadunidense Stephen Richards Graubard (1924-2021) escreveu um prefácio inquietante para introduzir os dois números temáticos da revista Daedalus, da qual ele foi editor por anos. Graubard (1989) inicia destacando que, passado quase uma década da emergência da AIDS, ainda era preciso se ter acesso à uma literatura que promovesse um debate mais qualificado. Tratava-se de uma crítica evidente às especulações estigmatizantes que deram a tônica das conversações sobre a doença naquela década. O texto é composto por inúmeras e relevantes questões, cujo escopo abrange um largo escopo disciplinar e institucional. Ele traça um panorama extensivo que nos insere no clima social, político e cultural daquele momento: a tragédia humana provocada pela AIDS, o desconhecimento, a inação estatal, as incertezas no campo científico e tecnológico, as múltiplas narrativas sobre a doença e as pessoas afetadas. Se Graubard tivesse lido o texto de apresentação do dossiê “40 anos da epidemia do HIV/AIDS: continuidades, transformações e dilemas nas respostas e enfrentamentos de um evento crítico global” publicado em 2022 pela Vivência – Revista de Antropologia por ocasião das quatro décadas da emergência da AIDS, assinado pelo antropólogo brasileiro Carlos Guilherme do Valle e pela antropóloga argentina Susana Margulies, teria se dado conta de que, em que pesem os avanços importantes nas respostas sociais à AIDS ao redor do mundo, “as atuais experiências e políticas do viver com HIV/AIDS expõe refrações de um processo histórico já de longa duração” (VALLE, MARGULIES, 2022, p. 15), além de seguir marcado por uma pluralidade de mobilizações, de experiências, de estéticas, de processos de biomedicalização, porém, assim como nos anos 1980, o estigma continua a atualizar a modelação da AIDS como uma tragédia humana.

Os textos de Graubard (1989) e de Valle e Margulies (2022) conectam um arco de temporalidades da AIDS como um evento crítico – uma vez que a AIDS não pode, nomeadamente no momento de sua emergência, ser subsumida dentro dos repertórios de pensamento e ações existentes (DAS, 2006). O livro “Determinantes sociais, biológicos e históricos da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo” junta-se a a essa tradição de conhecimentos, na medida em que parte da hipótese de que a epidemia de HIV/AIDS ainda não está superada, o que reclama por esforços acadêmicos que nos permitam revisitar sua história e reavivar um passado que se alinhava ao presente e ao futuro. Partindo de uma revisão da bibliografia das ciências da saúde, em especial do campo da Saúde Coletiva, os autores deste livro se colocam a importante tarefa de escrutinizar a diversidade de processos societários, políticos e culturais que estiveram (e estão) envolvidos nas formulações de ações estatais, sobretudo as políticas públicas de saúde, cujo objetivo é realizar um enfrentamento da epidemia, imaginar formas de cuidar, de prevenir novas infecções, de promover a saúde.

Num momento em que há um enfraquecimento ou banalização da efetiva inclusão de temáticas relativas à epidemia de HIV/AIDS nos currículos dos cursos de graduação na área da saúde (MORAES et al., 2018), o esforço de sistematização da literatura sobre os determinantes sociais, biológicos e históricos da epidemia de HIV/AIDS amplia a abrangência da proposta dos autores, uma vez que o livro pode se constituir – porque se posiciona numa lacuna anteriormente existente – num importante recurso didático-pedagógico que poderá ser facilmente incorporado nos encontros entre professores e estudantes Brasil afora. Mais que isso, por se tratar de um trabalho produzido no interior do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná, o livro “Determinantes sociais, biológicos e históricos da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo” evidencia a vocação epistemológica e política que historicamente tem caracterizado o campo da Saúde Coletiva no Brasil. Desse modo, o livro também se coloca como uma leitura oportuna para trabalhadores e gestores do Sistema Único de Saúde, em especial aqueles que participam diretamente da produção, da implementação e da avaliação das ações de atenção à saúde das pessoas vivendo com HIV/AIDS, como bem demonstra a ênfase dos autores deste livro na explicitação dos meandros da formulação de políticas públicas, sobretudo nas duas últimas seções de resultados.

O livro “Determinantes sociais, biológicos e históricos da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo” se coloca, portanto, como uma leitura necessária às pessoas interessadas no estudo e na pesquisa sobre HIV/AIDS no Brasil, pois além de revisitar a história, os autores refratam a AIDS como um evento crítico, uma tragédia humana, cuja complexidade e capacidade de transformação segue nos impactando, nos desafiando, mas, principalmente, nos convidando para um debate que empurra a ciência feita na universidade para os interstícios onde espaços público e privado se friccionam em relações de vida, nesses territórios onde a AIDS, como tentáculos, se incorpora no cotidiano e requer de nós atitudes e ações críticas.

 

Prefácio de Lucas Melo

Professor Doutor do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; Secretário Nacional Executivo da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+Brasil).

 

 

ISBN 978-65-5388-197-6
DOI 10.36926/editorainovar-978-65-5388-197-6

 

Biografia dos autores

Denis Fernandes da Silva Ribeiro - Enfermeiro graduado pela Universidade UNIGRANRIO (2016). Especialista em Micropolítica da Gestão e do Trabalho em Saúde pela Universidade Federal Fluminense (2018). Especialista em Gestão de Redes de Atenção à Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (2018). Especialista em Gestão em Saúde Pública pela Universidade Federal Fluminense (2019). Pós-graduado, nos moldes de Residência, em Saúde da Família da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (2017-2019). Possui título de Mestre em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná, na área de concentração de Política e Serviços de Saúde (2023). Atua como enfermeiro assistencial no Complexo Hospitalar de Clínicas da Universidade Federal do Paraná através da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares/EBSERH (desde 2019). Possui expertise nas áreas de saúde coletiva, enfermagem, políticas públicas, gestão em saúde, HIV, AIDS, feridas e lesões de pele, em cuidados primários e intensivos em saúde.

Bárbara Silvestre da Silva Pereira - Possui Graduação em Enfermagem pela Universidade UNIGRANRIO (2015). Pós-graduação em Enfermagem em Terapia Intensiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (2018). Pós-graduação nos moldes de Residência em Enfermagem Cardiovascular pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) (2019). Pós-graduação nos moldes de Residência em Saúde Perinatal pela Maternidade-Escola da UFRJ (2021). E Pós-graduação em Enfermagem em Pediatria e Neonatologia pelo Centro Universitário UNIABEU (2023). Mestrado em Enfermagem pela UNIRIO, na área de concentração: Enfermagem, Saúde e Cuidado na Sociedade (2023). Tem experiência nas áreas de enfermagem em terapia intensiva, enfermagem cardiovascular e enfermagem em saúde perinatal e neonatal e pesquisa científica.

Diana Ruth Farias Araujo Gaspar - Enfermeira graduada pela Universidade UNIGRANRIO (2016). Especialista, nos moldes de Residência, em Obstetrícia pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (2019). Atuou como Enfermeira Obstétrica Residente no Hospital da Mulher Mariska Ribeiro (2017-2019). Atuou como Enfermeira assistencial no Hospital Municipal Albert Schweitzer (2020-2023) e hoje é Enfermeira da Educação Continuada em Saúde no Hospital Municipal Albert Schweitzer da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (desde 2023). É membro da Comissão de Humanização e do Núcleo de Segurança do Paciente do Hospital Municipal Albert Schweitzer da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Possui experiência em enfermagem, gestão em saúde, educação em saúde, atenção à gestante, parturiente, puérpera e RN, bem como em pacientes hospitalizados em clínica geral, cardiologia e terapia intensiva.

Lorena Prado Santos - Graduação em Enfermagem pela UNIGRANRIO (2016). Especialista em Pediatria e Neonatologia pela Faculdade Bezerra de Araújo (FABA). Especialista em Saúde da Família e Comunidade pela Universidade Estácio de Sá (UNESA). Atuou como supervisora do Polo de Atendimento Exclusivo de COVID-19, no município de Mesquita -RJ e, também no mesmo ano, atuou como coordenadora na Unidade de Atenção Básica à Saúde da Clínica da Família Juscelino, no município de Mesquita (2021). Desde 2022 atua como enfermeira de equipe na Estratégia de Saúde da Família pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Possui experiência em assistência em enfermagem e gestão de unidade de atenção primária à saúde.

Eduarda Cristina Galon - Possui graduação em Enfermagem pela UNIFACVEST (2021). Atua como residente no programa de Residência Integrada Multiprofissional em Atenção Hospitalar em Urgência e Emergência no Complexo Hospitalar de Clínicas da Universidade Federal do Paraná/ CHC-UFPR/EBSERH (2022-2024). Possui experiência em enfermagem, atenção hospitalar, urgência e emergência e ultrassom à beira-leito.

Mariana Jordão França - Acadêmica de Medicina na Universidade Positivo (2022- 2027). Foi premiada em Primeiro Lugar na Categoria Iniciantes em Histologia e Segundo lugar na Categoria Iniciantes em Anatomia no Congresso Científico dos Acadêmicos de Medicina (CONCIAM) em 2022. Participou do Projeto de Iniciação Científica da Universidade Positivo (modalidade voluntária) no Ciclo 2022-2023 com o projeto Avaliação das Alterações Anatômicas da Bifurcação da Artéria Braquial. Em 2023 foi diretora da Comissão Externa do IX Congresso dos Estudantes de Medicina da PUC-PR (CEMED), participou do projeto de ensino Pesquisa e Desenvolvimento de Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem de Ciências Morfológicas para criação de um atlas digital de histologia, foi premiada em Segundo e Terceiro lugar na Categoria Ligas Acadêmicas na Comunidade no Congresso Científico dos Acadêmicos de Medicina (CONCIAM), foi Monitora da Disciplina de Anatomia Humana, participante da Liga Acadêmica de Humanização no Cuidado em Saúde PUC-PR (LAHCS) e da Liga Acadêmica de Oftalmologia de Curitiba (LIOF). Atualmente é Diretora Científica da Liga de Saúde e Atenção Primária PUC-PR (LASAP) e bolsista de apoio técnico do CNPq na modalidade ATP-B no projeto RARAS no centro Hospital Pequeno Príncipe.

Solena Ziemer Kusma - Graduada em Odontologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2002). Mestrado em Epidemiologia e Saúde Coletiva pela University College London (Londres, 2004). Doutora em Odontologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2011). Atualmente é Professora Adjunta e Chefe do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFPR, Professora Permanente no Programa de Mestrado em Saúde da Família da UFPR. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Epidemiologia e Promoção da Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas de saúde, validação de instrumentos de avaliação de estratégias vinculadas à atenção primária e secundária em saúde, qualidade de vida do estudante universitário, saúde do trabalhador e diferentes ciclos de vida.

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Publicado

fevereiro 8, 2024

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